Pelo centro de São Paulo

Barracas de frutas montadas desde cedo no Mercado Municipal de São Paulo

Andar pelo centro de São Paulo é uma experiência única. Por algum tempo estudei e trabalhei nas ruas e avenidas mais famosas da cidade. Sempre que conseguia me sentar na janela do Jardim Bonfiglioli ficava perplexa com o contraste entre o velho e o novo. Todos os dias, ao subir as escadas da estação República, o centro e seus personagens me invadiam. Quem anda por ali, conhece de perto o drama, o cheiro e o modo como vivem os moradores de rua da cidade. Ao olhar para cima, depara-se com a arquitetura imponente, consagrada e mal conservada de Oscar Niemeyer.

Hoje, vou contar um pouco sobre como é caminhar pelos corredores do Mercado Municipal de São Paulo, conhecido como Mercadão. Um dos principais motivos que me faz escrever sobre ele é que muitas pessoas que vêm a São Paulo – e muitos paulistanos, inclusive – ainda não tiveram a chance de conhecer um dos pontos turísticos mais tradicionais da cidade.

O domingo chuvoso e cinzento amanhecia. A chuva faz com que os moradores de rua se protejam sob os telhados mais generosos e os cobertores mais quentes. A cada esquina é possível perceber resquícios de pobreza e de abandono. A sujeira fica mais evidente à medida que o comércio fecha as portas e as ruas se aquietam. Caminhamos mais algumas esquinas e lá está ele. A construção, mesmo depois de revitalizada, ainda conserva sinais de desgaste.

O prédio do Mercadão é majestoso e guarda uma diversidade cultural impressionante. Próximos aos portões, vendedores ambulantes circulam seus carrinhos com uma música no volume máximo. Enquanto apresentam “a qualidade” de seu produto, entoam o último sucesso do momento. Nem a garoa fina e constante atrapalha quem faz do domingo um dia de semana qualquer. E então, o bege das paredes grossas dá lugar as cores, formatos, sons e passos. Passos lentos, passos apressados.

Comerciantes que acordam às 5 horas da manhã para armar suas barracas. Faxineiros que preparam os salões e limpam os banheiros. Garçons que ajeitam os uniformes. E donos de restaurantes que conferem o estoque. Eles fazem parte do exército de mais de 1.500 funcionários que dá vida ao Mercadão. Todos se preparam para o almoço. E de repente, fica difícil circular pelos corredores, equipados com barracas de frutas, baldes de champignon, frutas secas e azeitonas. É possível sentir em cada canto um cheiro diferente. Ora são linguiças secas penduradas, ora peixes e carnes cruas.

Meu restaurante preferido é o “Trigão” que vende pastéis e sanduíches – desses que aparecem na televisão em reportagens especiais de fim de ano, com oito camadas de recheio. Enquanto no térreo está a maioria dos comerciantes – tentando ganhar a atenção dos que passeiam por lá –, no segundo estão alguns dos restaurantes mais tradicionais de São Paulo. Entre eles, o Brasileirinho e o Hocca. E foi no segundo que escolhi meu pastel “Camarão Rei” – nome que faz jus à qualidade do prato.

É verdade que os visitantes e turistas precisam lutar pelas pequenas mesinhas enfeitadas. Mas, uma vez sentados, o chopp, claro ou escuro, dá vazão às risadas e às conversas. Aí, é só escolher no cardápio um pastel, uma porção de torresmo ou um prato feito caprichado. Márcia é a garçonete que nos atende. Nos restaurantes mais antigos, é comum que os garçons trabalhem no estabelecimento por anos e anos. Morena de pele, cabelos claros e olhos verdes, ela fala baixo mesmo com a barulheira do ambiente. Márcia é atenciosa e tenta acomodar bem todos clientes do Brasileirinho. Já está quase no horário de encerrar o expediente. Às 17 horas, ela deixa o centro da cidade para voltar apendas na terça-feira.

No andar de cima, pessoas disputam um espaço dos restaurantes típicos

A arquitetura parece ser toda pensada para que o público possa admirar a beleza dos vitrais coloridos e a beleza do lugar. Das mesas é possível admirar as cores dos vitrais e saber como está o tempo lá fora. Quando a chuva aperta, o ambiente escurece graças às partes do teto construídas com vidros transparentes.

Passam por nós atentas máquinas fotográficas, famílias brasileiras e estrangeiras, casais e amigos que aproveitam para assistir os jogos do domingo. É ali, naquele espaço, no coração de São Paulo que muitos conseguem desfrutar das cores, momentos e histórias. Para os que vêm de outras cidades, há até uma lojinha de regalos para dar uma vasculhada.

Esse é o Mercado Municipal de São Paulo, que todos os dias recebe turistas de diferentes lugares do Brasil. Todos os dias, dispõe de vendedores ambulantes cantarolando, comerciantes madrugadores e um público curioso. É ali que podemos saborear um delicioso pão com mortadela no ritmo de quem faz de São Paulo a terceira maior metrópole do mundo.

Para ver todas as fotos do Mercadão, clique aqui.
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Nas ruas, a cidade dos contrastes


Quase todos os ambientes de Buenos Aires têm um climatizador funcionando dia e noite. A parte ruim é que não conseguimos perceber ao certo o quão frio está do lado de fora. Da televisão argentina, ouvimos os principais destaques do noticiário político, das greves e dos esportes. O café da manhã precisa ser rápido afinal, para quem pretende conhecer os principais bairros da cidade em dois dias, o tempo é precioso.

Dizem que quem conhece São Paulo, consegue andar em qualquer outra cidade, devido ao tamanho da metrópole brasileira. Minha professora de espanhol costuma dizer que a principal diferença entre São Paulo e Buenos Aires é que a cidade portenha “parou no tempo”, e ainda hoje conserva muitos aspectos do século passado. O primeiro lugar que nos deparamos com esse “outro tempo” foi no metrô. Perguntei a um vendedor ambulante como chegar à rua Florida. Rapidamente, ele respondeu que era fácil. “Basta tomar el subte”. Demorei alguns minutos para entender que o Subte é o metrô brasileiro – carinhosamente chamado pelo diminutivo de subterrâneo.

Eles são realmente muito antigos. Alguns conservam o revestimento em madeira e se assemelham aos bondes do século passado. Asplataformas também são antigas, mas suportam o número de usuários. A máxima repetida por muitos moradores é a de que “são antigos, mas servem bem”. O preço da passagem nem se compara ao valor do Brasil. Por um peso e dez cents é possível viajar pela intrincada malha de trens da capital. Engana-se quem pensa que o sistema é muito mais simples que o de São Paulo. Não é. As linhas têm tantas cores quanto aqui. O mapa do Subte lembra claramente a imagem da aterrisagem em Buenos Aires. Mais uma vez, a cidade parece planejada, geométrica.

Cores, vozes, corpos e gestos se misturam nas famosas Florida, Córdoba e Corrientes. Nessas ruas mais conhecidas, os turistas fazem a festa. É um grande shopping a céu aberto onde os ambulantes aproveitam para esticar tapetes no meio das avenidas e espalhar seus produtos à venda. No entanto, são os espetáculos de tango que chamam mais a atenção das famílias que visitam a cidade. Para nós, a reserva já estava feita.

Outra parada previamente programada era na livraria El Ateneu. Conhecida por ser a maior da América Latina, a livraria guarda títulos e autores que fizeram história na Argentina e na América Latina. A estante que anunciava “Periodismo” logo me hipnotizou. Mas, admito, não estava tão repleta de clássicos como nas prateleiras de Literatura e Política. Depois de passar quase três horas folheando páginas e mais páginas, lendo atentamente os painéis dispostos pelos corredores do espaço, levei um exemplar de Confieso que he vivido – um compilado de experiências e memórias de Pablo Neruda.

Paramos, claro, em um café de esquina. A agitação era grande, mas conseguimos uma mesa ao fundo para descansar e saborear umcappuccino. Ali, me senti realmente no século passado. Observar a cidade, andar calmamente por ruas antigas, caminhar entre as estantes de madeira escura da livraria para depois sentar e apreciar o movimento pelo vidro do Café era algo que até então, eu nunca havia experimentado.

Falávamos, durante nossas caminhadas, que Buenos Aires poderia ser chamada de “a cidade dos contrastes”. O velho e o novo, o popular e o requintado caminhando juntos nas mesmas avenidas, sempre enfeitadas com bandeiras azuis e brancas – mesmo não sendo ano de Copa do Mundo. No primeiro plano, vendedores ambulantes cativam turistas com os preços baixos. Ao fundo, a cidade ostenta uma das mais belas galerias – A Galeria Pacífico – com lojas e infraestrutura que pareciam ser inspiradas nos bulevares europeus.

A tarde começava a cair e as ruas que contornavam o porto ficavam cada vez mais convidativas. As luzes dos barcos se ascendiam e refletiam na água todas as cores da cidade. Em Puerto Madero confirmei minha teoria de que cidades cortadas por rios são particularmente encantadoras. Fiquei com uma saudade imensa do Recife – onde estive às margens do Capibaribe para fazer meu livro-reportagem. Nostalgia.

São cores e mais cores que além de enfeitar a cidade, alegram os turistas, inspiram namorados e convidam curiosos a contemplar um pouco mais. A Puente de la Mujer é cuidadosamente construída a partir de placas que madeiras que fazem saltos eufóricos estalar. O vento era implacável, agitava o cabelo das mulheres, que se protegiam e se encolhiam dentro de sobre-tudos volumosos.

Os barcos, cobertos por luzes douradas, lembravam dezembro, quando as cidades se enfeitam à espera do Natal. Caminhando livremente e observando cada detalhe da paisagem, acompanhamos o pôr do sol e a chegada da noite escura, fechada. As luzes, coloridas e douradas, continuaram lá, alegrando outros passantes. Mas nós, deixaríamos o porto para trás. Agora, era a hora de conhecer o que de mais característico existe em Buenos Aires. Das ruas populares às elegantes casas de shows. A noite reservava o clássico espetáculo de tango.

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Revendedoras: um exército sem direitos

As revistas femininas vêm fazendo um grande esforço para colocar em pauta temas que ressaltam as conquistas das mulheres no século 21. As pautas são as mais variadas. Algumas trazem histórias de mulheres que sobreviveram após uma separação ou uma traição, outras contam como a sensibilidade feminina conseguiu produzir boas iniciativas nas políticas públicas de uma comunidade. Já existem, inclusive, editorias e até revistas inteiras dedicadas às mulheres-executivas que conquistaram um alto posto no organograma das empresas.

Relatar histórias como essas, claro, é uma forma de escapar à enxurrada de assuntos que pelo senso-comum foram definidos como “femininos”. Não há mal nenhum em substituir as “dez dicas de como se vestir melhor” por umas dez histórias de mulheres que lutaram para fazer a diferença na região onde vivem.

Foi mais ou menos isso que me chamou a atenção quando, folheando a Revista Cláudia (Editora Abril), estacionei nas páginas em que a diretora de redação, Cynthia Greiner, entrevista a presidente mundial da Avon, Andrea Jung. Vale dizer, que geralmente as matérias que aparecem na editoria me interessam bastante, uma vez que a diretora de redação conta os bastidores da conversa, expõe seu ponto de vista como entrevistadora, vai além do formato convencional.

Contaminada por clichês, pensamentos prontos, e o mesmo discurso limitado acerca da independência feminina, a entrevista decepciona. Embora, tenha certeza de que Cynthia saiu de lá com a sensação e a certeza de missão cumprida – afinal, a história de sucesso já havia sido extraída, e rica em detalhes –, a matéria deixa vários pontos a serem contestados. Ou, no mínimo, discutidos.

As perguntas oscilavam entre “quais os critérios usados para a escolha das causas sociais da empresa” até as estratégias e “o caminho que a executiva trilhou para chegar ao topo de uma empresa líder global no mercado de beleza”, com uma receita de 10 bilhões de dólares ao ano e um exército de 6,5 milhões de revendedoras. Essa é a parte que mais gosto. Um exército de 6,5 milhões de revendedoras que não são mais citadas em nenhum momento da entrevista.

Olhar para a foto da diretora da empresa e já no lead me deparar com “a ambição ocidental e sabedoria oriental…”, me fez pensar nas condições de trabalho as quais são submetidas milhões de mulheres escravizadas nas linhas de produção de países asiáticos, por exemplo. Claro que não precisamos ir ao outro lado do mundo para encontrar exemplos de trabalho escravo ou precário. Afinal, quem nunca encomendou uma listinha de produtos a uma revendedora próxima? Quem nunca impulsionou esse “exército” de mulheres que trabalham para gerar uma renda – que muitas vezes mantém todo o orçamento familiar – e não têm nenhum direito trabalhista assegurado?

As revistinhas encantam, é verdade. Mas por trás delas, se esconde a total ausência de direitos trabalhistas às revendedoras. Essas mulheres, quando querem ou quando podem, contribuem como autônomas para a Previdência Social. Nenhumas das grandes empresas de cosméticos, líderes globais, têm interesse em regularizar ou alterar a situação dessas profissionais. O interesse mais premente está, claro, em reformular a cartilha de valores e supostas causas sociais e ambientais defendidas pela empresa. Talvez, um dia – assim como vender a ideia de preservação do meio ambiente –, a defesa de melhores condições de trabalho também entre na moda – e, consequentemente, na agenda das empresas e na pauta da imprensa.

Poderia contar aqui várias e distintas histórias de mulheres que se esforçar para desenvolver uma boa estratégia de venda “boca-boca” para vender e fidelizar clientes dessas empresas que alimentam o mercado de beleza. Conheço uma mulher que vive sozinha e, graças às vendas que consegue durante o mês, sustenta filhos, netos. Entretanto, o direito dos trabalhadores vai muito além da renda obtida para sustentar a família – engloba as férias remuneradas, licença-maternidade, aposentadoria assegurada, o 13º salário, entre outros.

Daí vem a indignação. Esse numeroso exército sem direitos é a sustentação de empresas com a Avon. Sem o trabalho dessas mulheres, muito provavelmente, Andrea Jung, não teria chegado ao mais alto posto da empresa. E na entrevista, nem um linha é citada em defesa desse exército. As três páginas se referem à conquista pessoal da empresária.

Por fim, encerro este texto com a segunda frase que mais me chamou a atenção na entrevista. Tanto chamou a atenção que ganhou destaque e virou o olho da matéria. Escrita com letras garrafais, a frase explica o motivo de o batom ser o item campeão de vendas dos produtos. “O batom faz tanto sucesso porque dos lábios sai a voz feminina”. Surpresa, indignação, revolta.

Quem conhece minimamente a história da comunicação entre os povos, sabe que técnicas de pinturas sempre foram utilizadas como rituais religiosos ou de sedução. O batom é, por excelência, o item da nécessaire feminina usado para seduzir.

E isso mostra, sobretudo, o quanto as mulheres – há séculos – gostam de se pintar para apresentar uma imagem sedutora diante do parceiro. Não excluo a sensação de poder e independência que o item pode gerar. Mas daí a falar que ele “é dos lábios que sai a voz feminina”, é forçar um pouco a vontade (inconsistente ou quase inexistente) de querer transparecer na matéria e na empresa a luta das mulheres ao longo dos anos.

Por Fabíola Perez.

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Por las calles de Buenos Aires

Pela janela do taxi, a Nove de Julho, uma das avenidas mais populares de Buenos Aires

Da janela do taxi, a Nove de Julho, uma das avenidas mais populares de Buenos Aires

O trânsito para chegar ao Aeroporto Internacional de Guarulhos não ajudou. E o dia cinza já anunciava a noite fria que estava por vir. A verdade é que naquele exato momento, minha vida parecida uma cena de cinema – daquelas clássicas, em que o protagonista sai correndo para interromper o voo do amado, que está de partida. Só que naquele dia, a corrida foi em vão. Era 27 de maio, minha irmã e eu viajaríamos para Buenos Aires, na Argentina, para passar três noites e dois – não fosse o fato de termos perdido o voo no Brasil.

Na bagagem, levávamos um roteiro para conhecer os bairros mais falados da cidade, um mapa prático das linhas de transportes e uns poucos pesos argentinos para comprar alguns regalos. Mais do que isso, levávamos a ansiedade de conhecer uma cidade belíssima do ponto de vista jornalístico e arquitetônico. Afinal, se para mim, a missão era observar as praças dos libertadores das Américas, visitar livrarias e registrar cenas do cotidiano, para minha irmã, Andrezza Perez, o objetivo era perceber os detalhes da arquitetura argentina, fotografar galerias e conhecer prédios restaurados que ganharam o charme da modernidade portenha.

O novo voo, inicialmente previsto para as 21h30, decolou quase as 0h. Apesar do cansaço, a vista pela janela encantava. Nenhuma de nós havia viajado de avião a noite. Foi aí que os sotaques e línguas começaram a se misturar. Ao lado, um argentino parecia ansioso para chegar em casa. Mais à esquerda, um empresário concentrado estudava os detalhes finais de uma apresentação de trabalho. Bocejava. As luzes internas se apagaram na mesma velocidade em que a cidade se ascendia. Buenos Aires se aproximava. Geométrica, dourada. De lá de cima, a cidade parecia organizada, pouco caótica e preparada para receber mais uma centena de latinos que desembarcava para o fim de semana.

Menos de três horas depois, já pisávamos em território argentino. A placa avisava que éramos muy bienvenidas no Aeroporto Internacional de Ezeiza. Para quem vai fazer turismo em Buenos Aires, sabe que os taxis são meios fundamentais para imersão na realidade local. De fato, conversar com os taxistas é a melhor forma de treinar o espanhol e falar sobre coisas cotidianas simples. Eles adoram explicar como é o trânsito nas principais avenidas, se aprovam ou desaprovam o governo de Cristina e se estamos bem localizadas na cidade. Curioso foi perceber que todos eram equipados com terços e imagens religiosas para proteger a viagem.

Avenida Bertolome Mitre, Centro. Ali passaríamos as próximas duas noites para conhecer principais ruas de Buenos Aires, a pé ou de transporte público. Taxi, só para os momentos mais urgentes. Galerias antigas, construções em madeira, ruas estreitas. Estávamos no centro da cidade. Na bancada da recepção do hotel, estava o mapa dobrado em leque aguardando a consulta dos turistas ansiosos.

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Caros leitores,

Definitivamente, não consigo precisar quando surgiu a ideia de fazer este blog. Acho que desde que esse espírito jornalístico, que registra tudo o que vê e observa tudo que pode, se apossou por completo de mim. A concepção desse blog vem daí. Vem também do gosto pelas viagens, pelo novo, pelo desconhecido. Desde pequena fui acostumada a encarar quilômetro e quilômetros de estrada para chegar a lugares nem sempre muito turísticos. Tudo isso, atrelado ao que sempre foi minha grande paixão; o jornalismo.

Dessa bagagem, nasceu o Andanças. Pretendo reunir nesse espaço meu portfólio acadêmico e profissional como uma maneira de dividir minhas experiências com os leitores que se interessem por temas como política, sociedade, narrativas de viagens e jornalismo.

O grande objetivo desse espaço, no entanto, é promover o debate e a exposição de temas que surgem de “cenas do cotidiano”, como eu gosto de chamar. Quero aqui dar face ao anônimo que se constrói sob nossos pés. Assim, ao abordar meus temas preferidos, pretendo exercitar aquilo que realmente pode ser chamado de Jornalismo.

Pretendo, por fim, colocar em prática o fazer jornalístico, a prática da reportagem. Simultaneamente simples e complexo, o objetivo desse espaço é estimular a responsabilidade do jornalista de contar história, escrever palavras, descrever gestos e transcrever sensações. Simples assim.

Seja bem-vindo ao Andanças, por Fabíola Perez.

 

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Estranho muito tudo isso

Imponente, marca atrai mais consumidores

Imponente, marca atrai mais consumidores

Um dia qualquer da semana passada resolvi ir ao Mc Donald’s. Tudo bem, admito. Ainda não cheguei ao patamar de abolir o hábito de comer lá, ao menos aos fins de semana. Bom, mas sobre isso, tenho um relato, no mínimo, intrigante para dividir com os leitores.

Pensando em meu pedido, enquanto me aproximava do caixa (e consequentemente do caos que separa os clientes da cozinha) notei que todo o balcão estava equipado com um novo elemento. Não precisei nem chegar muito perto para ler as letras negritadas e vermelhas que diziam: “Seu atendimento em 60 segundos ou um Big Mc em troca”. Era uma caixinha com o anuncio da mais nova promoção do restaurante e com um cronômetro digital. Haviam umas sete dessas ao lado de cada caixa.

Assim que chegou a minha vez de pedir, fiz questão de perguntar ao rapaz que atendia o que ele estava achando daquela promoção. Aqui, vale a pena uma breve descrição de como estavam os “ânimos” do jovem que providenciava meu número. Negro, magro e com cara de menos de 25 anos, o jovem me escutava com um olhar fixo. Olhos arregalados e atentos à qualquer movimento, a sua frente ou atrás.

No instante que se virava pela terceira vez para ver se o lanche estava pronto, perguntei já desconfiada da resposta:

– Vocês estão gostando dessa promoção?

E interrompendo o caráter automático do atendimento, ele abriu um sorriso discreto e respondeu:

– Não tô gostando disso, não. A gente já se mata pra atender normalmente, com essa promoção, então… E ainda tem gente que faz o pedido especial, o que atrapalha ainda mais para a gente entregar no tempo.

– Mas esse tipo de pedido está incluso na contagem? – continuei.

– Está sim. Isso aqui é desumano…

Fiquei em silêncio por nem 30 segundos. Esse foi o tempo que ele esticou minha bandeja, fechou o riso e esticou a mão, gritando: próximo.

Trabalho, globalização e outras reflexões

Criticar o hábito cada vez mais crescente de frequentar fast foods tem se tornado cada vez mais clichê. Mas confesso que essa cena realmente me fez pensar em muitas coisas de uma vez. Pensei na parcela de jovens que ainda não conseguiu conquistar o sonho de terminar seus estudos e têm que se entregar aos ritmos do trabalho cada vez mais cedo.

Pensei em como alimentamos este ciclo, ou seja, adoramos tanto comer no Mc Donald’s que se não formos atendidos em exatos 60 segundos um funcionário pode sofrer represálias por um serviço prestado “indevidamente” e nós, clientes e consumidores, somos recompensados com mais uma promoção.

E não se trata de fazer aqui uma crítica rasa ao sistema capitalista que entende tudo isso como parte de um todo irremediável. A questão vai muito mais além. A crítica é ao capitalismo selvagem que se instaura e abarca todas as esferas. Enfim, se alguém conseguir parar para pensar nisso já está de bom tamanho.

Ou, então, podemos nos contentar em ver sempre estampada na parede a foto do exemplar funcionário do mês. Aquele que deu conta do serviço, suou sob os cronômetros, ganhou sua gratificação no fim do mês e que, de quebra, garantiu a estabilidade do estoque no fim do dia.

Como diria meu pai: “durma-se com esse barulho”.

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Movimentos Sociais

Ongs e Mídia: a batalha pela informação

Coordenador de comunicação do MST fala sobre barreiras e desafios na relação entre grande imprensa e terceiro setor

Uma bandeira vermelha com dois trabalhadores rurais e uma foice. Para o coordenador de comunicação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Igor Felippe, a imagem da bandeira do MST é o maior símbolo de comunicação do movimento.

Convidado para falar sobre a relação entre Ongs e veículos de comunicação no curso de Jornalismo Internacional da PUC na manhã deste sábado (26), Felippe explica que, atualmente, o MST conta com uma série de veículos de comunicação para defender a causa da Reforma Agrária no País e levar informações aos militantes, ativistas e interessados.

 

Igor Felippe: "A Reforma Agrária nunca esteve na pauta dos brasileiros"

Igor Felippe: "Hoje, a reforma agrária não está na pauta da sociedade brasileira"

 

O primeiro, o jornal Sem Terra, surgiu há 30 anos pela necessidade de informar as famílias alojadas no acampamento sobre os fatos do dia a dia. Mais tarde, na década de 1990, quando o movimento passou a ser conhecido nacionalmente pela morte de trabalhadores rurais em Rondônia e no Pará (Carajás), um jornalista de O Estado de S. Paulo avisou: “agora vocês são um interlocutor nacional, vamos procurá-los constantemente”. Em 1997, surge a Revista Sem Terra, que, segundo Felippe, chega para dialogar com a população da cidade.

Entretanto, de acordo com o coordenador de comunicação, com a implementação do neoliberalismo no Brasil a situação mudou. “Quem controla o latifúndio no campo não são mais os grandes fazendeiros, são as grandes empresas de agronegócio”, explica. Para defender a causa social e divulgar a luta dos trabalhadores, o MST decidiu ampliar suas formas de comunicação. “O movimento é muito pequeno para lutar contra tudo isso”. Assim, em 2003, nasce o jornal Brasil de Fato, uma agência de notícias de rádio e a editora Expressão Popular.

Como parte da estratégia de comunicação para defender e legitimar a causa pela propriedade de terra frente aos veículos de comunicação do País, foi criada também uma rede de assessores de imprensa. “Mas é muito difícil fazer circular a informação contra hegemônica”, admite Felippe.

 

Quando só a luta é notícia

“Vocês costumam atender a Veja (revista), mesmo ela tendo esse viés contra o MST?”, perguntou uma das alunas. “Há um tempo, a Veja até ajudou a popularizar o MST. Eles apoiavam a Reforma Agrária, mas até certo ponto. Sem haver ocupações”, explicou Felippe. “Hoje, não atendemos nem a Veja, nem a RBS, se não acabamos legitimando a versão deles”, esclareceu.

Coordenador de Comunicação do MST, Igor Ribeiro

Coordenador de Comunicação do MST, Igor Felippe

Segundo o coordenador de comunicação, o movimento tenta conseguir espaço na imprensa, com pautas que vão além das ocupações de terra, porém, nem sempre isso é possível. “O agronegócio tem uma força muito grande e a Reforma Agrária está fora da pauta dos brasileiros, por isso, só conseguimos avançar se tiver luta”.

A linha, portanto, é tênue. Sem ocupações, a mídia não noticia. Quando noticia, vê apenas como um movimento de luta. E embora o grande instrumento do MST seja de fato a luta – pela causa e pela terra –, existem outras pautas que podem e devem despertar o interesse público.

Igor Felippe participou da discussão sobre os diferentes lugares ocupados pelos atores sociais na contemporaneidade. Atualmente, jornalistas produzem conteúdo para a mídia e também para Ongs, fazendo da comunicação um instrumento de causa coletiva e causa própria.

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